Quarenta anos já se passaram desde a manhã daquele ‘primeiro de janeiro’, o dia em que cheguei àquela casa.
De Juiz de Fora, nas Minas Gerais, fui de mudança para Mauá, na Grande São Paulo, levando toda a minha “fortuna” numa única mochila. Ali couberam minhas roupas, um ou dois livros e algumas quinquilharias -- coisa de que só gente pobre gosta ou precisa, e conserva. Lembro de haver dois cabides de plástico que não couberam por inteiro na mochila, ficando à mostra como se fossem ‘criaturas insubmissas e curiosas’.
Naquela casa moravam Afonso e Elza, meus tios maternos, e os filhos, Wendell e Elisângela. O menino tinha a idade de uns seis anos, e a menina dez. Eram duas crianças doces e dóceis, que nunca me aborreceram -- o que não posso dizer o mesmo em relação a elas. Minha fama de ‘pessoa difícil’ é verdadeira e não me é muito favorável. Contudo, espero não ter aborrecido ninguém durante os ‘cinco anos, seis meses e quinze dias’ passados ali.
Não, eu não morei na casa deles, mas nos fundos do imóvel. Era um pequeno aposento, que seria um híbrido de ‘quarto, sala e cozinha’, mais um banheiro privativo e uma pequena área com pia e fogão. Um espaço mais do que suficiente para mim, mas que já chegou a acomodar duas ou mais pessoas.
Cheguei àquela cidade para trabalhar e estudar. Foi um tempo difícil, embora eu já tivesse passado por dias mais áridos. Meu dia a dia era intenso. Inicialmente, eu saía de casa antes das ‘cinco da manhã’ para entrar no serviço às seis em outra cidade. Depois, meu trabalho ficou noturno e passei a sair ao anoitecer. Primeiramente para a escola, e de lá para a estação ferroviária onde eu pegava o último trem para descer em Santo André. Dali, eu percorria a pé um trecho de uns dois quilômetros até chegar à empresa. Minha jornada começava exatamente à meia-noite, sendo essa uma dura rotina de longos anos.
Aqui entra uma questão, a mais importante. Trabalhando à noite, de segunda a sábado, além dos estudos, eu não tinha tempo para nada. Dormia mal, mal me alimentava e não conseguia cuidar das minhas coisas. Mas eu tinha o apoio dos tios, que me ajudaram muito. Lembro que a tia fez questão de lavar as minhas roupas e ainda vigiava os meninos para não me acordarem. Muitas vezes fui despertado, não pelas crianças, mas pela mãe. Zelosa de meu sono diurno, a tia bradava: “Parem com esse barulho, senão vocês vão acordar o filipe!!!!”
E a Elisângela?... Pois bem, essa prima foi bastante sacrificada nesse período. Ela e seu irmãozinho tinham os coleguinhas com os quais dividiam as tarefas escolares e com quem gostavam de brincar, mas tiveram pouca liberdade para isso. Criança gosta de correr, pular, falar, cantar, gritar... Criança é naturalmente barulhenta! Mas naquela casa isso ficou prejudicado por uma situação que durou ao menos três anos.
Fora o desconforto descrito acima, tenho ao menos duas dívidas com a Elisângela. Uma: certa vez, cheguei todo feliz com o livro “A história da Matemática”, que comprei na faculdade, e ela o encapou para mim. Outra: as minhas camisas, que ela fazia questão de passar, eu as recebia impecáveis num dos cabides trazidos naquela mochila da viagem.
Na noite do último sábado, dia ‘vinte e dois’, recebi a triste notícia do falecimento da Elisângela.
filipe