feldades

EMBALADO POR ELIS

São dezoito horas e alguns minutos quando começo a digitar esta crônica. No fone de ouvido está ela, a doce Elis Regina cantando “Maria, Maria” de Fernando Brant. Essa música é apropriada neste momento porque outra ‘Maria’, também ‘Aparecida e Padroeira’, esteve no centro de uma disputa político-ideológica – um prenúncio de prometida guerra espiritual.

Meus dias têm sido áridos, com noites indormidas. Ontem, deitei-me à meia-noite, acordei antes das cinco e me levantei. O dia parecia começar antes do começo por causa das eleições gerais neste país. Este foi um dia intenso e tenso.

No final da manhã, pus uma camisa vermelha e me dirigi à zona eleitoral, que fica numa escola infantil com abecedários e garatujas nas paredes. A sala de aula é um espaço imaculado das crianças, que deveria ser somente delas, mas não é assim, infelizmente.  Nelas se votam: para o bem ou para o mal, mais para o mal.

Antes de entrar na sala, fiquei numa fila; depois uma outra fila me deixou confuso e perguntei por quê. “Esta é preferencial; a outra é normal”, alguém me respondeu. Se é preferencial, deveria ser para cadeirantes ou pessoas debilitadas, pensei.  Fui para a outra, que me parecia mais triste porque longa. Antevendo a demora, abri o livro e comecei a ler, mas tomando cuidado para esconder a capa com um papel que tinha dupla função: dar privacidade a mim e proteção ao livro.

De repente uma senhora, que parecia ser recepcionista, percorreu a fila e me perguntou a idade. “Meia quatro”, respondi. “Então pode entrar!” Naquele momento percebi que, além de idoso, tenho também cara de velho. Desconcertado, tentei fazer graça com os demais, dizendo: “Essa é a vantagem de ser velhinho. Vocês jovens fiquem aí”. Acho que ninguém riu, até porque a minha camisa vermelha era um “distintivo maldito” para eles, que pareciam ser “gente de bem”.

Entrei e me sentei ao lado de um senhor mais velho do que eu, mais gordo e mais falante. De vez em quando ele queria puxar assunto, mas eu fingia ler pra não conversar. De repente o “velho chato” veio com esta: “Viu, no Japão já acabou a votação. O ‘B***o’ ganhou de lavada!” Caro leitor, eu me recuso a escrever o nome do “cramulhão”, a quem não se deve nomear. Também não levei em conta as desimportâncias  daquele sujeito desimportante.

Passados uns minutos, o ‘velho chato e falante’ foi chamado para votar e fiquei na expectativa, porque eu seria o próximo. Na mesa, o homem repetiu: “Viu, lá no Japão o ‘B***o’ ganhou de lavada!” “É mesmo?!”, alguém comemorou. Em seguida o ‘velho, chato e falante’ foi à urna e fui chamado à mesa. De repente o ‘velho, chato e falante’ começou a reclamar: “A urna tá com defeito, não consigo votar.” O mesário, muito paciente, deu orientações, disse pra apertar tal e tal botão. O ‘velho, chato, falante e reclamão’ concluiu a votação e saiu aliviado. Estava tão satisfeito, que dava impressão de ter acabado de fazer aquilo que se faz escondido numa “casinha”. Certamente ele fez o tal “número dois”, digitando-o duas vezes.

Chegou a minha vez. Votei, peguei o documento, agradeci e fui saindo, mas atrás de mim vejo a “recepcionista”, que me acompanhou apenas pra dizer: “Olha esse livro é muito bom. Gosto muito do Maiakovski”. “Sim, o Maiakovski é mesmo muito bom”, respondi. Só que eu estava com Dostoievski, mas como os dois são russos... tudo certo. Porque aqui no Brasil a coisa tá russa!

filipe  

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