Série em três capítulos
O texto abaixo foi digitado no começo da noite de domingo passado durante as apurações das eleições. Embora atropelado por um feliz ineditismo, decidi mantê-lo como registro de minhas emoções, que não são apenas minhas.
Amargurado com a certeza de que o inominável teria vencido o pleito, eu havia acabado de digitar esse desabafo quando um grito ressoou lá nas entranhas de casa e me despertou de um longo pesadelo: “O Lula virou! O Lula virou!!!”.
Entre perplexo e incrédulo, saí do rancho e entrei em casa para tomar pé dos fatos. Ali, vi na tela números que me desanuviaram o espírito e me marcarão para sempre. A extrema direita não venceu o pleito presidencial, sendo derrotada fragorosamente e de forma inequívoca.
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Sobre a máxima “no final, o bem vence o mal”, já tive dúvidas; agora não mais. Mas antes de me posicionar sobre esse mantra com viés romântico-filosófico, quero despejar nesta página minhas angústias, que não são poucas nem leves. No entanto, serei breve.
O Brasil acaba de eleger o que há de mais nefasto, nocivo, repulsivo, vil, abjeto, asqueroso, repugnante, hediondo, nauseabundo, ascoso, sórdido, torpe, desprezível, (...) para a ‘presidência da república’. Dias atrás essa desgraça se deu no parlamento.
Não tenho palavras pra descrever minha tristeza com o que acontece no meu país, mas sei que isso é um reflexo do que ocorre no mundo todo, um ‘sinal dos tempos’. Ou final dos tempos, quem sabe...
Hoje fui cedo pra votar e, antes de sair, fiquei indeciso sobre a cor da camisa que eu vestiria. Relutava em pôr vermelho devido à violência ideológica que tem vitimado algumas pessoas. Pensei no branco, cheguei a vestir uma camisa preta, mas fui convencido a usar vermelho com detalhes minúsculos em branco.
A caminho, o transito estava calmo, a seção eleitoral tranquila, sem fila, e foram poucos minutinhos para que eu entrasse para digitar aqueles dois algarismos, que fiz numa espécie de ‘fé desesperançosa’. Terminada a votação, já saindo da sala, encontrei uma jovem que acabara de chegar pra votar. Ela não trajava cores partidárias, mas na sua camiseta lia-se: “Engenharia Ambiental”. Num cruzar de olhos, cumprimentei-a com um sorriso e disse isto: “Precisamos muito de engenheiros ambientais”. Ela apenas sorriu, mas entendi aquele silêncio.
Muito foi dito ultimamente sobre “polarização” na política, como se disputas acirradas nunca tivessem acontecido por aqui. No Brasil não há polarização, mas disseminação de ódio por um grupo político que tem nome: bolsonarismo! Depois que essa praga se instalou no país, há cerca de dez anos, a nossa vida social nunca mais foi a mesma. São muitos os casos de amizades desfeitas, famílias desunidas e até de casais em conflito. Tudo isso por causa de um sobrenome, que tenho dificuldade de digitar.
Os teólogos têm uma definição exata para o autor dessa desgraceira toda: ‘diabolus’ – aquele que divide, que separa, que conflagra. Então deve ser essa a explicação para a tal ‘guerra espiritual’ anunciada pela família que está assumindo todos os poderes da nação: executivo, legislativo e judiciário.
Antevejo tempo difícil para quem se opuser à ‘família herodiana’. Porque ela tem consigo as tais “potestades”, que são as forças malignas com as quais se estabelecerá um reinado de trevas neste país, e contra as quais não há arcanjos que as detenham.
Voltando à abertura deste texto, acho que não há dúvidas de que ‘o bem possa vencer o mal, mas não aqui; no além?... acredito que sim’.
NOTA: Vou interromper minhas publicações neste blog por tempo indeterminado. Talvez eu volte em breve. Talvez eu volte um dia.
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Essa foi aquela que poderia ter sido a última publicação no blog. No entanto, devo continuar por aqui, ainda que eu tenha poucos leitores, ou nenhum leitor. A mim importa mais o ‘verbo e a voz’, porque ‘sem verbo nem voz ninguém tem vez’.
filipe